segunda-feira, 13 de setembro de 2010

É engraçado.

Como aquela cicatriz que ele leva na perna.

Ele se lembra de tudo nos mínimos detalhes.
De como insistiu durante meses para que o pai lhe comprasse aquela bicicleta do comercial.
Do dia em que, ao sair do quarto deparou-se com ela, ali. Seus olhos brilhando, o coração disparado, sem saber o que fazer.
A ansiedade que sentiu antes de dar a primeira volta...
Do vento bagunçando seus cabelos, dos braços abertos e do sorriso em seu rosto.
Do quão tarde chegava em casa para aproveita-la ao máximo.

E dos outros meninos da rua...
De como eles invejavam a sua mais nova paixão.
Ria sozinho a noite, na cama, imaginando o quanto eles queriam aquilo.
Mas só ele tinha. Só ele tinha.

Com o passar do tempo, a empolgação sumiu, usava-a por rotina, mas sempre estava lá. Era útil.

Até que chegou o fatídico dia:
Distraiu-se numa curva. Estava prestes a se chocar contra um caminhão que vinha no sentido contrário.
Não teve tempo de pensar duas vezes...  Lembra-se de ter ouvido alguns gritos, buzinas, um frenada forte e um barulho quase insuportável do metal sendo retorcido. Era ela.
No desespero em se salvar, lançou-se na direção da calçada, deixando a bicicleta ainda no trajeto do caminhão.

Saiu com alguns arranhões e um profundo corte na perna. Lembra-se da dor, era tão forte que chegou a desmaiar.

Aquela cicatriz... Hoje ele sorriu ao olhar pra ela. Não por causa da dor, não por conta do acidente, mas por causa das lembranças. Foi uma parte da sua bicicleta que fez aquele corte. Foi o resultado do último contato com seu sonho infantil.

2 comentários:

Rodrigo Couto Zeferino disse...

Gostei do conto, me lembrei do comentário que fiz em "Outro lamento" ;)

Eric Monné disse...

Eu tenho uma cicatriz enorme na perna, mas não é de bicicleta. A da bicicleta é pequenininha. Isso porque, em vez de atropelar um caminhão, só atropelei umas duas mulheres.